O que realmente importa
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O texto que segue abaixo é de um cara que eu admiro muito. O nome desse cara é Lucas Von.Ele é até meio que conhecido aqui no sul, mas pra quem não o o conhece ele é um gremista que ficou famoso pelo seu blog no globoesporte.com . O texto fala sobre o falecimento de sua avó, e confesso que é de arrepiar, mostra o quão gente boa é esse gremista.
Ah quem interessar, o que realmente importa:

Esse texto é meio clichê. Na teoria, todos sabem o que realmente importa. Mas vamos lá. Adoro clichês.
Minha vó era motivo de piada por não querer incomodar. Pra ela tudo tava bom. Qualquer cantinho pra dormir tava excelente, qualquer coisa pra comer tava ótimo. Podia ficar esperando na rodoviária, podia ficar esperando sozinha, podia não esperar e ir de táxi. Tanto faz, ela só não queria incomodar. Filhos e netos se divertiam com isso. “Hoje a mãe/vó vai dormir na casinha do cachorro pra não incomodar“.
Libertadores 2003, quartas de final. Independiente de Medellin 2 x 1 Grêmio, na Colômbia. A vó Célia, moradora da gelada Bom Jesus/RS, por algum motivo estava em Porto Alegre nesse dia. Por algum motivo estava na minha casa. Só nós dois. Eu, fanático desde sempre, nervoso com o jogo. A vó, gremista desde sempre, acompanhando a partida comigo pela TV. Sem um pingo do meu nervosismo, mas com um interesse aparentemente grande pelo evento. Comentava, perguntava, até xingava. Celinha copera y peleadora.
Lá pelas tantas o Grêmio começou a perder o jogo e a classificação, e meu humor, que já estava na altura do joelho, desceu para o dedão do pé e fazia força para invadir o apartamento do vizinho de baixo. Nessas horas, os fanáticos sabem, qualquer comentário meramente maldoso, idiota ou inconveniente nos irrita profundamente. E os fanáticos sabem também que, nessas horas, qualquer comentário é potencialmente maldoso, idiota ou inconveniente. Aí os jogadores do Grêmio começaram a chutar algumas bolas por cima do gol adversário e a vó me perguntou, várias vezes: “Lucas, por que eles não chutam DENTRO do gol? Eles não sabem que é ali que tem que chutar?“
Ela perguntava séria, não estava brincando. Queria realmente saber o motivo pelo qual eles não faziam o que lhe parecia tão óbvio. Pensando agora é engraçado, mas no dia me irritava. “Maldita hora em que a vó foi parar aqui em casa nesse dia, nessa hora”. Tudo que eu queria era ver meu jogo quieto e amargar minha eliminação sozinho. Ou com alguém que me entendesse naquele momento. Alguém que entendesse de futebol. Entendesse, pelo menos, minha irritação à flor da pele.
Dez anos se passaram. Quarta-feira, 24/07/13, acordo com um soco no estômago: minha irmã me liga aos prantos dizendo que a vó Célia faleceu. Do nada. Inesperadamente. Infarto fulminante. E agora? Quem vai me ligar no meu aniversário dizendo que tá rezando por mim? Quem vai rezar por mim noutros momentos importantes da minha vida? “Hey, Lucas, tu não é agnóstico?” Sou sim. Mas a reza da Celinha funcionava, acreditem em mim.
No caminho até Bom Jesus fui pensando: “imagina se a vó liga para todos os irmãos, filhos, netos, demais parentes e amigos e diz que tá carente”. Pede para que todos compareçam na sua casa para um almoço. Ela só quer um abraço de cada um. Em plena quarta-feira. Imagino as respostas. “Como assim, mãe? Não posso largar tudo hoje do nada. Tenho que trabalhar, tenho que blá blá blá, tenho que bló bló bló“. Eu diria que talvez 3 convocados fossem, num cálculo deveras otimista. Talvez ninguém fosse. Mas aí a vó morreu. E aí todo mundo foi. Morando longe, morando perto, com filhos, com trabalho, com chefe, com uma vida toda pra administrar. Todos foram. Deram seu jeito. O ser humano é engraçado. Pra dar um abraço na Celinha viva a comoção não seria minimamente semelhante. E o incrível é que dar atenção e valor à pessoa em vida é o que mais importa. Somos estranhos.
E justo a Dona Célia, que não gostava de incomodar, se foi justamente no dia da Final da Libertadores. Talvez pra nos mostrar o que realmente importa. Ninguém estava preocupado com a Final da Libertadores. Estávamos, finalmente, preocupados com o que realmente importa. Inclusive já sentindo saudades do que realmente importa.
“Imagina se é o Grêmio na Final da Libertadores. E imagina se o Grêmio perde essa Final de Libertadores”. Por mais fanático que eu seja, lhes digo: pouco me importaria. Claro que me importo com o Grêmio. Ia olhar o resultado do jogo no celular. Óbvio. Amo o clube. Mas é diferente. Não se compara. E parece que a gente precisa tomar esses tapas na cara da vida pra ver o óbvio, o que realmente importa. E o que realmente importava ontem, pra mim, não era um jogo de futebol. Por mais importante que ele fosse. Por mais que o Grêmio estivesse jogando. Seria importante pra mim, isso sim, se o Grêmio estivesse jogando e a vó Célia estivesse ao meu lado perguntando: “Lucas, por que eles não chutam DENTRO do gol? Eles não sabem que é ali que tem que chutar?“
A vida é um baita clichê. Óbvio e simples. Mas, incrivelmente, às vezes não vemos o que realmente importa. Ou até vemos e sabemos exatamente o que temos que fazer, mas chutamos pra fora, sei lá por quê. Sei lá por quê, vó.
Vai com Deus, Celinha.
Abraço,
Lucas.

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